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Medo

De que você tem medo?

Ando por caminhos escuros, sem saber o que virá a seguir. Mal consigo olhar em volta. Não quero ver, não quero sentir. A escuridão nos faz querer correr, e é isso que quero fazer. Temo morrer de frio, daquela dor de cabeça de quando o vento congelante vem em sua direção. Piora cada vez mais. Remédio não cura. Como tanta gente consegue sentir isso a vida toda e continuar vivendo? Soa como piada. A falta de luz me faz cair em todas as pedras, que por sinal apenas ficarão maiores. Como tanta gente consegue passar por elas a vida toda? E quando todo o caminho escuro está preenchido por pedras? Eu posso quebrar minhas pernas e não conseguir mais levantar.

Ao meu redor estão vários lobos. Eles observam, mas me olham com indiferença. Eu grito, grito, grito, minha garganta dói. Agem com normalidade. Peço ajuda, mas se viram e seguem seus trajetos. Apenas um se aproxima. “Não consigo me levantar, estou com frio e está tudo escuro, será que pode me ajudar?” E então ele apenas faz como os outros.

Uma senhora passa por mim e pergunta o que aconteceu. Explico que tropecei e me machuquei muito, além de estar com muito frio. “Por que não vestiu um casaco? Preste atenção.” E assim segue, como já havia me acontecido antes.

Vejo uma luminosidade estridente ao meu lado e me arrasto até ela. Encontro uma moça com várias lanternas. “Você precisa de uma, tome essa aqui.” E me alcança uma daquelas. “Sei que não consegue ver nada, mas agora vai poder enxergar por onde anda.” Logo em seguida chega um rapaz, com um andar discreto e com um jeito calmo. Esperava por palavras vindas dele, talvez sua voz fosse tão suave como o resto. “Ei, você está louca? Precisa se virar sozinha, largue esta lanterna.” Diz, derrubando-a de minhas mãos. E assim segue seu trajeto. Abaixo minha cabeça e começo a chorar. “Chore, bote para fora.” Diz a vendedora, me abraçando. Ela estanca o sangue com alguns panos e logo em seguida chama ajuda. Engraçado, já que o que mais sangrava naquele momento era meu coração.

Consigo ouvir com muita clareza todos os outros gritos por ajuda a minha volta. Talvez nem todos tenham a mesma sorte de encontrar uma banca de lanternas. Talvez só passe por eles quem apenas ignora e aumenta a dor.

Meu coração continua sangrando, e a cada minuto que se passa a fraqueza toma mais espaço. Sou atendida. Levo pontos em todos os machucados em meu corpo. Doutor, a dor vem de dentro. “É normal, às vezes sangra, já passei por isso, vai passar. É apenas uma fase.” Obrigada.

Ninguém vive sem sangue, assim como ninguém vive sem a felicidade.

Eu tenho medo de não parar de sangrar.

Aperto

O tempo passa devagar,

E só consigo sentir o aperto no peito

De quem apenas está a se afogar.

 

Dizem que é simples:

“Não é nada, já vai passar”

Vivendo de promessas alheias

Aumentando a esperança de algo incerto

Sinto o sangue correndo por minhas veias.

 

Quanto mais respiro,

Mais sem ar fico

Inspiro

Expiro

 

Preste atenção,

Ainda sairá prejudicada

Você tem prova amanhã

Cuidado para não dar mancada!

 

Se não deu certo:

“Não se preocupe, ainda dará!”

Vivendo aguardando o futuro

Que aparenta estar por perto

 

Acomodando-me no duvidoso,

Mergulhando em abismos,

Vivendo subjetivismos,

Aguardando por algo frutuoso.

A floresta: Prisioneira

Sentia calafrios. O silêncio que ecoara na floresta não era mais o mesmo, já que agora apresentava-se com mais força a fazendo se sentir mais sozinha a cada passo que dava. Aquele garotinho veio como um raio: Pronto para partir, sem dar nenhuma explicação sequer. Que diabos havia ocorrido? Ela estava em choque, completamente confusa. Será que estava tendo alucinações? Seria uma boa explicação por estar tão assustada e perdida por o que parecia uma eternidade.

Prairie andava em passos curtos temendo o que poderia ver adiante. Sua expressão era o retrato de seu medo, uma mistura de suor, lágrimas e terra. O vestido sujo que trajava ia até o joelho, passando pelo seu corpo que exibia diversos vestígios de lama e arranhões. Sua respiração ofegante fazia com que sentisse sua garganta a seco e uma sede agoniante. “Tudo o que preciso agora é encontrar um pouco de água”, pensava, incapacitada de usar o mínimo de sua voz, “eu preciso encontrar…”, passava a mão sobre seu rosto para tentar enxugar as lágrimas que agora já desciam mais vagarosamente. “Se eu não encontrar o que beber, não suportarei andar mais.” A garota já sabia que se não tentasse suprir sua sede, logo não teria mais forças. Girava em torno de um ponto fixo tentando iluminar o que havia em sua volta, tentando avistar algum sinal de água corrente. “Sei que havia uma corrente por aqui, não pode estar muito longe.” Andava lentamente, sentindo sua respiração presa.

Sentiu de repente um leve vento em suas costas, virando-se imediatamente. Não parecia haver nada por onde olhava, tudo continuava entediantemente igual. Andou por mais alguns metros e sentou-se em um monte de folhas macias e aconchegantes. “Eu preciso de água…” Repetia, inconscientemente. Novamente sentiu o vento em suas costas, e se afastou chorando, pousando sua mão em algo molhado e cortante. “Mas o que é…” Por bondade do destino, sua mão havia ido direto em uma corrente de água pura e cristalina sobre pedras afiadas que houvera visto e agora havia finalmente encontrado. Bebeu aquela água com tanta vontade como se houvesse ficado sem por dias. Molhou suas mãos e logo em seguida molhou seu rosto a fim de limpá-lo de tanta sujeira.

“Já devem ter se passado umas três horas que eu estou presa nesse lugar”, falou baixinho, “minha mãe deve estar desesperada atrás de mim…” Tinha completa consciência de que havia feito a coisa errada ao seguir o caminho que sua mãe a aconselhou a passar longe.

“Prairie”, ouvia uma voz em sussurros se aproximando, “Prairie…” Virou-se imediatamente. “Mamãe?” Perguntou com um tom árduo. “É você? Por favor não desista de me encontrar, eu estou perdida!”, aumentou sua voz. E então rapidamente voltou a sentir suas lágrimas quentinhas descendo pelo seu rosto em meio ao frio. Desmoronou ao chão, totalmente inconformada. “Ela estava tão perto…”

Ouvir a voz de sua mãe e não conseguir vê-la, tocá-la e abraçá-la deixou Prairie confusa. Por que ouvia aquele timbre tão doce? A proximidade em que pareciam estar fazia a garota se lembrar do quão bom era dormir em seus braços acolhedores e quentinhos. Ah, quentinhos. Era algo que ela já não se lembrava mais. Havia se tornado prisioneira daquela floresta. A floresta a fez prisioneira.

Passava a mão no braço em que segurava a lanterna, tentando se aquecer. À medida que o tateava, sentia-o mais molhado. Molhado? “Ó céus, que porcaria é essa agora?!” Visualizou seu braço direito sujo de sangue por inteiro. De onde havia saído todo aquele sangue fresco? Não pareciam conter feridas. Só havia uma explicação cabível: Suas mãos. Ambas. Os cortes foram feitos pelas pedras cortantes da corrente de água que houvera encontrado de uma forma sangrenta. Doíam tanto, mas tanto, que latejavam. Inchadas, cortadas, ensanguentadas. Como não havia sentido antes? Rasgou um pedaço de seu vestido imundo para estancar a vermelhidão e deitou-se no chão úmido, exausta. Desligou a lanterna.

“Acorde menina!” Levantou-se em um pulo, ligando sua lanterna. “Então quer dizer que você está perdida”, disse o garotinho, sorrindo inocentemente, “eu também me perdi neste lugar enfadonho, sem sal… Sinto falta da minha mamãe, você também sente, não sente?” Prairie com uma reação de espanto, não hesitou: “Sim, estou perdida, completamente, totalmente! Por favor, me ajude a sair daqui… Você sabe como sair, eu tenho certeza disso.” Uma troca de olhares deu lugar a um incômodo suspense, que certamente Prairie adoraria interromper. “Anda, responda! Você parece estar aqui a mais tempo que eu, olhe só seus machucados, tão passados e pouco cicatrizados! Onde é a saída?” A agonia tomava conta de seu peito com rapidez, e aquele menino loiro não demonstrava interesse em ajudar, mas muito pelo contrário: Deixar uma grande incógnita. Sorriu novamente, porém desta vez com malícia: “Descubra.” Correu em direção contrária à menina, como se estivesse brincando de pega-pega.

Passos para trás descompensados, tortos e involuntários. O destino parecia voltar para se cruzar com os mesmos caminhos mil vezes; A floresta parecia uma prisão que estava pronta para sufocar a prisioneira a qualquer momento. Tropeçou em algo grande e imóvel, bem no meio do caminho de seus passos invertidos. Na tentativa de se levantar, desequilibrou-se e caiu novamente, sentindo seu pé preso. “De novo não…” Disse, com um tom de desânimo. Havia ficado presa em um buraco, como houvera antes. Agarrou sua lanterna e ao iluminar seu pé, teve uma surpresa: “Não é possivel, preciso passar por isso de novo? Eu quero sair daqui agora!” Uma enorme cobra aproximava-se sorrateira, como se estivesse indo em rumo ao seu banquete predileto. “Prairie… Onde está você? Estou indo lhe buscar minha filha!” Ouvia gritos em meio à imensidão. “Mamãe? Venha logo, eu estou presa!”

Os montes de folhas eram bons travesseiros. Uma ardência quase que insuportável tomou conta de seu corpo, assim como o mau cheiro. Um fino feixe de luz passava por suas pálpebras, formando imagens embaçadas, como um espectro do mundo real. Precisava abrir seus olhos e tentar desvendar o local onde estava, no entanto, não era tarefa fácil. Estava faminta, desidratada e tremendo de frio. Levantou-se com dificuldade do que parecia ser um colchão fino e rasgado no meio de uma sala estreita. Havia uma lâmpada  no centro do teto de madeira mofado, com sua luz falhando. A porta estava trancada, as janelas fechadas por fortes velhos cadeados. Não haviam saídas. Olhou para seu vestido: Nunca estivera tão coberto por sangue e sujeira. O fedor de suas feridas eram escancarados, embrulhavam seu estômago.

“Oi? Tem alguém aqui?” Gritou Prairie, esperançosa. A única resposta era o silêncio. Com toda certeza haveria alguém ali, afinal, como teria ido parar em uma cabana? Havia andado por horas pela floresta e não tinha visto nada daquilo. Aliás, tudo parecia ser a mesma coisa aqui e ali, como se andasse em círculos; Como se o universo fosse cruel o bastante para juntar seus pesadelos em um só lugar. Seria errôneo dizer que ela não estava com medo, pois estava apavorada. Nunca esteve tão desesperada e desolada como naquelas últimas horas (ou dias).

As lendas que assombravam aquele vilarejo pareciam ser verídicas no que dizia respeito àquela floresta. Bruxas malvadas que se aproveitavam de visitantes- ou apenas pessoas perdidas. Havia outra lenda que dizia que quem adentrasse aquelas trilhas, era tomado por alucinações e medos jamais sentidos. Quem seria aquele garoto, afinal? Por que aparecia e sumia tão rapidamente sem parecer querer muito papo, simplesmente deixando a menina de 14 anos sem nenhuma instrução sobre como poderia sair dali e reencontrar sua mãe? Sua infância forte e valente parecia vir como um flashback bem em sua frente. O mesmo buraco, a mesma cobra. Tudo estava sendo jogado contra ela. Não era corajosa o suficiente? Parecia que a maldição se confirmava. Ou apenas se reafirmava…

“Olá, Prairie.” Disse o pequeno menino loiro amedrontador. “Você queria sair daqui, né?” Indagou, irônico. Como sabia seu nome? “Sua mãe nunca irá vê-la novamente.” A luz que antes brilhava com falhas agora já não brilhava mais. A floresta que era sombria agora se tornava fúnebre, como o interior de um túmulo. O silêncio nunca havia sido tão ensurdecedor.

A floresta

“Filha, leve isto para sua avó, ela está muito doente e não consegue se levantar da cama…” Prairie ouviu o alto tom de voz de sua mãe vindo da cozinha. Sem demora, foi até lá e avistou uma cesta repleta de frutas e alguns pedaços de bolo.

O cheiro estava maravilhoso, dificilmente alguém que passasse pela rua não o sentiria. Aproximou-se e observou cada coisa que havia ali: Três pedaços de bolo de chocolate, duas maçãs, um generoso pedaço perfeitamente simétrico de melancia, e uma boa quantia de ameixas. Tudo parecia perfeito, exatamente como sua avó gostava (e ela também). Seu estômago roncava e sua boca salivava. “Talvez ela me deixe comer um pouquinho quando chegar lá,” pensou, ficando ainda mais animada, “é tão longe, não é possível que ela não queira deixar eu comer pelo menos um pedacinho desse bolo.”

Já estava quase escurecendo, então a garota teve que se apressar. “Não vá pela floresta, Prairie. Já está anoitecendo e você sabe o quanto é perigoso.” Sim, sua mãe estava certa. A noite lá era sombria e perigosa, ninguém se arriscava a ir por aquele caminho. Além disso, havia diversas lendas de crianças que eram levadas por bruxas malvadas ao passar pela floresta à noite. Mas Prairie não era uma criança, era uma adolescente. No auge de seus 14 anos, não tinha medo de muita coisa. Quando tinha 9 anos, uma cobra imensa envolveu seu corpo enquanto cochilava no jardim; Ela brincava até dormir, e gostava muito de deitar na grama após uma garoa matinal. Quando seu pai finalmente havia chegado, ela já tinha apunhalado a cobra com uma faca que estava a seu alcance.  Foi nesse dia que ela se tornou a menina mais corajosa e destemida que aquele vilarejo jamais havia visto.

Sua mãe estava tomando banho, então Prairie deixou um bilhete em cima da mesa da copa: “Fui à casa da vovó.” Pegou uma lanterna para a volta e seguiu depressa. O caminho que ela tinha em mente não era lá essas coisas… Principalmente depois de uma tempestade na madrugada anterior. Após chuvas extensas, a noite na floresta costumava ser gelada como se houvesse neve e com muitas poças de água, o que dificultava sua travessia. No entanto, isso era algo que a garota desconhecia, já que nunca havia passado pela floresta na escuridão. Aliás, ela não imaginava que estaria tão escuro. A densidade da vegetação era inimaginável: As folhas das imensas árvores se entrelaçavam, formando uma espécie de manto que impedia que a pouca luz do final de tarde passasse. No fundo sabia que seria errado não seguir o conselho de sua mãe, e sabia que algo poderia acontecer, mas nem por isso deixou de seguir em frente.

Ligou sua lanterna e iluminou ao seu redor:  “Que lindo!” sussurrou para si mesma, “Parece que fica mais bonito ainda à noite.” Olhava para os lados observando a água corrente que por ali passava, e sem vestimentas adequadas para o frio que fazia, tremia: “Eu devia ter trazido um casaco…” E prosseguiu olhando mais para os lados que para o chão. Não ouvia barulho nenhum além do som das cigarras que ecoava na imensidão em que havia entrado.

Olhou em seu relógio e já havia passado uma hora desde que saiu de casa. Como não conhecia aquele trajeto, poderia demorar até duas horas. Na verdade não era apenas por desconhecer o trajeto; Prairie estava congelando, e por mais que não quisesse admitir para si mesma, estava tremendo de medo também. Sentiu seu pé preso em algo e o iluminou: “Não acredito que isso está acontecendo!” Pensou, desacreditada. Havia ficado preso em um buraco pequeno que apenas ele poderia ficar. Ela o puxava, mexia e remexia, e nada. Tentou afastar o solo de seu pé com as mãos, e de nada adiantava. “Será que vou ficar aqui para sempre?”

Deitada no chão coberto por folhas úmidas, seu coração acelerado não ajudava a sanar o desespero.  Sua lanterna iluminava o tronco de uma árvore que havia em sua frente, mas pouco conseguia enxergar devido às lágrimas que desciam pelo seu rosto enfileiradas. Só conseguia pensar a todo instante: “O que eu estou fazendo aqui? Era certeza que daria errado, por que não pensei?” O frio que sentia parecia estar sumindo e ao invés de tremer de frio agora suava. Sentiu alguém pegando em seu pé, e desprendendo do buraco. Mirou a luz de sua lanterna em direção ao seu pé, e ficou surpresa: Um garotinho loiro, com suas roupas sujas e rasgadas, a encarava. Aproximou-se dele e observou uma ferida aberta em seu braço. Não parecia que era recente, pois não havia nenhum sinal de sangue. O menino estava imóvel e olhando diretamente nos olhos de Prairie. Perguntou, almejando uma resposta: “Você está perdido?” Ele não falou nada, apenas continuou olhando para seu rosto. “O que aconteceu com o seu braço?” Parecia que o som das cigarras ficava cada vez mais alto à medida que o questionava e não obtinha respostas. Aproximou-se dele mais um pouco e levou sua mão em seus ombros. O garoto olhou para o lado, com uma expressão de desespero, e saiu correndo, veloz. Prairie assustou-se: “Não vai,” gritava, “volte aqui!” Mas ele já havia desaparecido pela escuridão. Seu suor secava e o frio voltava. O que será que aquele menino havia visto?

Continua…

Para que?

Quando nasci, ganhei de presente a morte. A única certeza que tenho é que um dia irei morrer. Falecer. Chegar a um lugar melhor. Bom, chame-a como preferir.

Outro dia estava dormindo profundamente, quando fui acordada repentinamente com aquele sentimento de que algo estava errado. A luz do sol não transpassava a janela como outrora; ainda podia sentir o frio da madrugada. Tive minha paz interrompida em meio à noite envelhecida. Ó Deus, o que poderia tirar meu sossego desta forma? A morte. Somos pegos de surpresa, -eu fui pega de surpresa! Arrumei minhas coisas com uma enorme dificuldade para enxergar o que estava pegando em minhas mãos, as lágrimas desciam cada vez mais densas. Ó Deus, logo agora?

A dor no peito apertava cada vez mais. O tempo próximo não costuma ajudar muito… Ele apenas vai inflando nosso peito de angústia. Chorei, pois precisava desinflar. Se o tempo próximo não dói, a longa data te aniquilará aos poucos. Os minutos se tornam horas. Cada instante parece ser uma eternidade.

O que temos certeza (e a única certeza) é que à morte estamos destinados. Não há como fugir, não há como correr. Alguns colidem de frente, quando não se sentem capazes de suportar mais a própria vida; alguns correm, o mais rápido que podem. Tabu! Outros, tranquilos, a recebem como um destino manso. Temendo ou não, saiba: Todos iremos morrer.

Toda a sociedade se apressa para conseguir o que quer, ou até coisas que nem são tão necessárias assim. Pois ora, olhe nas ruas de sua cidade. O sofrimento é um vírus: descuide-se e será contaminado. A rotina cansa, suga a alma e a felicidade dos seres humanos. Olhe nas ruas de sua cidade! Palavras grosseiras e agressivas, filtros inexistentes. Trabalhe! Trabalhe! Seja ambicioso! Para que? À morte estamos destinados, e no céu não entra dinheiro, e nem bens conquistados durante a vida. Hoje conversando com uma professora, ouvi atentamente: “Carro é roubado, dinheiro também. Mas o conhecimento que passo aos meus filhos, as experiências vividas, isso eu tenho certeza que não será tirado deles. É para sempre.” Para que passamos toda nossa desprezível existência sofrendo e correndo sem parar? Não adianta ser ganancioso. É aí que entra todo aquele discurso da felicidade.

Ah, caro leitor, não tema a morte. Ela é algo que chega de fininho e pega muita gente de surpresa. Mas saiba que o sentido da vida está nos amores que conquistamos; nas pequenas coisas apreciadas; na paz do pôr do sol; no cheirinho das plantas levemente umedecidas após a garoa. Nossa existência, apesar de todas as dores e perdas, não é inútil. Parece fútil dizer, mas apenas vivemos uma vez. Apesar da luz não transpassar mais à janela nas manhãs ensolaradas, esse não é o fim. O fim, meu amigo… Não o cogite, não o espere. Mas saiba que ele existirá. Tenha vontade de sentir o cheirinho da terra molhada, de ver o arco íris. Seu legado nunca morrerá.

Não perca a sua vida! Não é algo que é vendido por aí em camelôs e nem na internet. Ela passa num piscar de olhos, e esse piscar de olhos não se repetirá. Nascemos e ganhamos de presente a morte…