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Cinza

Não te pesa a consciência alimentar essa casca sobre você? Ela não pesa? Ela não cai? Como? Não te dá dores nas costas? Nem no coração? Não se sente em cinzas expondo essa coisa cor de rosa estranha que te cobre por completo? E o fôlego, você não perde? Não fica sufocado? Te traz alívio fazer as pessoas sorrirem com toda essa cor? Pare de mentir para si mesmo.

Pensa que o que alimenta o que você acha que é vem de dentro? Por dentro existe um ser puramente verdadeiro. Por fora existe um traje bonito, cabelo arrumado e um belo sapato. Acha que consegue disfarçar o sofrimento que há no fundo do seu coração coberto por essa casca? Pare de se enganar.

Você age como quem não quer nada e toma todo o cuidado do mundo para não deixar o semblante entregar o emaranhado de sentimentos que está impregnado em sua alma. Mente para as pessoas e às vezes deixa escapar um pouco do seu veneno guardado. Isso não te traz vergonha? Não te deixa exausto ferir outros por algo que te estilhaça dia após dia?

Lembro de ouvir-te dizer que queria mudar. O que você está mudando? Seu disfarce? Enquanto está preocupado em manter o cor de rosa dessa sua casca bem vivo, seu eu interior está apodrecendo. Bom, não sei você, mas eu nunca vi algo podre voltar a ser viçoso.

Não sei se toda essa mentira te cansa,  mas você está de pé em um mundo que não tem chão. Pois então não te dá vontade de construir um chão? Onde está se sustentando? Nessa sua aparência medíocre? Para de se machucar. Respira.

A vida é um tesouro que só é verdadeiramente desfrutado quando se é verdadeiramente si mesmo. Uma hora você vai cansar de toda essa história e vai querer viver. Espero que seja logo.

Medo

De que você tem medo?

Ando por caminhos escuros, sem saber o que virá a seguir. Mal consigo olhar em volta. Não quero ver, não quero sentir. A escuridão nos faz querer correr, e é isso que quero fazer. Temo morrer de frio, daquela dor de cabeça de quando o vento congelante vem em sua direção. Piora cada vez mais. Remédio não cura. Como tanta gente consegue sentir isso a vida toda e continuar vivendo? Soa como piada. A falta de luz me faz cair em todas as pedras, que por sinal apenas ficarão maiores. Como tanta gente consegue passar por elas a vida toda? E quando todo o caminho escuro está preenchido por pedras? Eu posso quebrar minhas pernas e não conseguir mais levantar.

Ao meu redor estão vários lobos. Eles observam, mas me olham com indiferença. Eu grito, grito, grito, minha garganta dói. Agem com normalidade. Peço ajuda, mas se viram e seguem seus trajetos. Apenas um se aproxima. “Não consigo me levantar, estou com frio e está tudo escuro, será que pode me ajudar?” E então ele apenas faz como os outros.

Uma senhora passa por mim e pergunta o que aconteceu. Explico que tropecei e me machuquei muito, além de estar com muito frio. “Por que não vestiu um casaco? Preste atenção.” E assim segue, como já havia me acontecido antes.

Vejo uma luminosidade estridente ao meu lado e me arrasto até ela. Encontro uma moça com várias lanternas. “Você precisa de uma, tome essa aqui.” E me alcança uma daquelas. “Sei que não consegue ver nada, mas agora vai poder enxergar por onde anda.” Logo em seguida chega um rapaz, com um andar discreto e com um jeito calmo. Esperava por palavras vindas dele, talvez sua voz fosse tão suave como o resto. “Ei, você está louca? Precisa se virar sozinha, largue esta lanterna.” Diz, derrubando-a de minhas mãos. E assim segue seu trajeto. Abaixo minha cabeça e começo a chorar. “Chore, bote para fora.” Diz a vendedora, me abraçando. Ela estanca o sangue com alguns panos e logo em seguida chama ajuda. Engraçado, já que o que mais sangrava naquele momento era meu coração.

Consigo ouvir com muita clareza todos os outros gritos por ajuda a minha volta. Talvez nem todos tenham a mesma sorte de encontrar uma banca de lanternas. Talvez só passe por eles quem apenas ignora e aumenta a dor.

Meu coração continua sangrando, e a cada minuto que se passa a fraqueza toma mais espaço. Sou atendida. Levo pontos em todos os machucados em meu corpo. Doutor, a dor vem de dentro. “É normal, às vezes sangra, já passei por isso, vai passar. É apenas uma fase.” Obrigada.

Ninguém vive sem sangue, assim como ninguém vive sem a felicidade.

Eu tenho medo de não parar de sangrar.

Aperto

O tempo passa devagar,

E só consigo sentir o aperto no peito

De quem apenas está a se afogar.

 

Dizem que é simples:

“Não é nada, já vai passar”

Vivendo de promessas alheias

Aumentando a esperança de algo incerto

Sinto o sangue correndo por minhas veias.

 

Quanto mais respiro,

Mais sem ar fico

Inspiro

Expiro

 

Preste atenção,

Ainda sairá prejudicada

Você tem prova amanhã

Cuidado para não dar mancada!

 

Se não deu certo:

“Não se preocupe, ainda dará!”

Vivendo aguardando o futuro

Que aparenta estar por perto

 

Acomodando-me no duvidoso,

Mergulhando em abismos,

Vivendo subjetivismos,

Aguardando por algo frutuoso.

Ponto final

Comecei a escrever e parei na metade da primeira linha. Inicialmente queria falar sobre querer agradar todo mundo e acabar quebrando a cara com isso. Nem coloquei o primeiro ponto final, e pensei comigo mesma: Espera, sério que você vai escrever sobre isso? Precisava escrever por estar chateada exatamente por tentar ser legal demais. No entanto, caí na real só por estar colocando tudo em palavras aqui, portanto, apaguei. Passamos a vida toda construindo valores e tentando nos melhorar a cada dia que se passa, pra alguém chegar em você e te chamar de burro, idiota… que seja. Nunca fui de me importar pra críticas do tipo (ainda não ligo tanto), mas não é todo dia que estou com um sorriso no rosto pra digerir tudo o que me dizem. Tem gente que acha que nosso ouvido é penico. Meu ideal é agradar a mim mesma, e sendo assim, fazer o que me faz bem. Sei exatamente quem sou, não deveria ligar nem um pouquinho sequer pra quem gosta de falar merda. Quando ia botar o ponto final na frase inicial deste texto, me peguei pensando no porquê de tanta preocupação. Ei, pare com isso. Não é, e nunca será possível agradar a todos. Ah, e nem a si mesmo. Ninguém aqui é perfeito, cometemos erros o tempo todo. Preocupe-se apenas em se melhorar, melhorar para si mesmo. Ou seja, mude porque quer, e não para agradar as pessoas. Se tem algo em você que está te incomodando, trabalhe nisso. Não tente ser legal o tempo todo, sério. Isso vai te sobrecarregar uma hora, e, acredite em mim, bem não vai te fazer. Ou vai, se aprender a não ficar se movendo pelos outros. Não tem aquela pessoa que você não foi com a cara, ou achou chatinha sem ter batido um bom papo, ou conhecido a fundo sua personalidade e coisas do tipo? Agora se coloque no lugar dela, e suponha que ela está no seu lugar. Por que este sentimento de reversão? Não faz sentido, não é mesmo? A primeira impressão que temos dos outros vale muito, mas não tanto quanto quando conhecemos de verdade quem cada um é. Essa pessoa também não te conhece. Bote na sua cabeça que conhecer é diferente de “conhecer”. Só fala quem sabe. E você sabe pra falar? Talvez tenha ouvido várias histórias/boatos, que seja, mas o que isso justifica? Fica na sua. Essa coisa de ficar julgando e apontando o dedo pra cara dos outros SEM CONHECER, é insuportável. Primeiro, se conheça. Depois, só isso mesmo. Lembre-se também que o outro também tem paranóias. O propósito é não tirar conclusões precipitadas; conclusão geralmente vem no final, isto é, quando se conhece o outro. Tanto se fala de compaixão mas compaixão pouco se tem. Olha a que ponto cheguei. Estou bem melhor agora. Bendito ponto final que não botei.

Você não merece

Você não merece isso. Esperar por um amigo e ganhar um meio-amigo. Um meio-amor. Uma pessoa pela metade. Sem sombra de dúvidas, você não merece isso. Não merece alguém que te faça acreditar na vida, e que cada dia será melhor que os anteriores- e logo em seguida te prova o contrário. Você não pode deixar a sua esperança aumentar e diminuir desta forma. Tem horas que a gente cansa de brincar de montanha russa com as pessoas. Obviamente toda relação tem seus altos e baixos, mas estou falando de algo bem maior que isso. A situação chega ao ponto de te fazer questionar que tipo de pessoa é essa que está ao seu lado. Que tipo de pessoa é essa que está ao seu lado? Ela te dá meio-amor, meia-atenção, meio-respeito, meia-preocupação? Honey, então não vale a pena. Definitivamente, este é o tipo de ser humano que não vale a pena. Pior mesmo é quando a gente constrói um carinho tão grande por ela, e depois tudo isso que criamos/construímos cai sobre nós, vira-se contra nós. Ou é tudo, ou é nada. Das duas uma. É tudo? Ótimo, perfeito. Mantenha essa pessoa na sua vida. É nada? Tchau. Você merece mais que isso. É como dizem por aí: Não aceite migalhas. Não é meio-amor; na verdade, se é meio não é amor. Não é meia-atenção. Quem se preocupa mesmo contigo não te dá nada pela metade. E quando estás na fossa e precisa de um ombro amigo, cadê o seu meio-alguma-coisa? Onde? Depois que sentimos que “ninguém se importa”, vem aquela sensação de solidão. Fulano de tal tá pouco se lixando pra você, sério, tá nem aí. Sua meio-alguma-coisa também não tá nem aí. Ninguém é obrigado a aceitar isso. Para de ficar correndo atrás, amiga. Descansa um pouco. Tem gente que não merece o mínimo do seu esforço. E com isso tudo, o que acontece? Você só se desgasta mais e mais. Quem parecia ser incrível, aos poucos vai sumindo. É bem difícil. De meio em meio você se esvazia. Contraditório, mas faz sentido. De tanto engolir meio-alguma-coisa, você se sente sozinho. Sem sombra de dúvidas, você não merece isso. Porém, entretanto, no entanto, nesse joguinho inútil de se dar pela metade, mal sabe fulano de tal a pessoa incrível que ele está perdendo. Você. 🙂

Eu sou muito mais do que você possa imaginar.

Claro. Sou uma pessoa como você, feita de carne e osso. Olhe para mim. Sim, olhe para mim. Olhe logo. Olhou? Ok, agora me diz: O que você vê? Um rosto, um corpo, uma imagem. Já parou para pensar o quão bela posso ser por dentro? Quantos sentimentos e sonhos guardo dentro de mim? Sou tão normal quanto você. Tenho vontades, tenho desejos, pensamentos estranhos, e mais um bocado de coisas não definidas. Posso ter consciência ou não, posso ser uma pessoa boa ou ruim, ou os dois ao mesmo tempo. Já ia me esquecendo, sou um poço de desgraça, assim como você também é. Rude? Eu? Não. Aliás, talvez. O que você vê pode ser apenas um rosto, um estereótipo. Tenho minhas ânsias, meus medos, minhas capotadas diárias, minhas pequenas-grandes mentiras, meus erros, minha preguiça. Mentirosa? Não. Aliás, talvez. Sou um rio de incertezas, como você. Às vezes fico sentada na cama olhando pro nada, pensando em que merda eu estou fazendo. Tudo poderia ser melhor. Aliás, pode. Aliás, talvez. Falsa? Eu? Não, claro que não. Na verdade… pode ser que sim. Você nunca vai saber. Posso estar fingindo, ou posso estar dizendo a verdade. Sou um poço de alegrias, assim como você também é. Dou risadas, choro, gaguejo, xingo. Ah, como xingo! E xingo muito. Estaria sendo hipócrita se dissesse que não xingo. Xingar é feio, ah se não é. Mas mesmo assim eu xingo. Xingo muito. Você também xinga. Não seja hipócrita. Quando bate seu dedinho do pé na quina de algum móvel, o que você diz? “Ah que pena!”? Acho que não. A realidade mesmo é que você diz coisas bem piores que isso. Você mente, eu também. Você sente, ama, chora, ri, xinga, é sem educação e não tem paciência. Eu também sou assim. Aliás, talvez. O que você vê primeiro quando olha pra mim? Meu rosto. Muitas coisas podem estar além disso. Eu sou um mar de imensidão. Tenho meus valores, e assim como você, eu não preciso provar para ninguém as minhas afirmações pessoais. Olhe, quem é essa garota que chegou agora? Ridícula, ela? Por que? Ela tem cara de nojenta? Que que tem? O que você está vendo, meu caro? Um rosto? Eu também. Mas olhe para ela. Olhe logo. Olhou? Ok, agora me diz: O que você vê? Ela é muito mais do que você possa imaginar. Universo que me livre de pessoas que julgam sem conhecer. Aliás, estaria sendo hipócrita se dissesse que não julgo. Ah, como julgo. Por mais que eu tente, ainda tenho esse lado sombrio. Sou estranha, assim como você também é. A diferença entre nós é que um pode ser menos estranho do que o outro. Mas temos algo em comum: temos sentimentos, alegrias, tristezas, e muitas estantes para colocarmos os nossos erros. São tantos erros que ainda estão por vir, que acho que já vou fazer encomenda de mais estantes. Mas olhe, olhe de novo. Ela é legal? Sério? Não parecia. Quer ser nossa amiga?