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A floresta

“Filha, leve isto para sua avó, ela está muito doente e não consegue se levantar da cama…” Prairie ouviu o alto tom de voz de sua mãe vindo da cozinha. Sem demora, foi até lá e avistou uma cesta repleta de frutas e alguns pedaços de bolo.

O cheiro estava maravilhoso, dificilmente alguém que passasse pela rua não o sentiria. Aproximou-se e observou cada coisa que havia ali: Três pedaços de bolo de chocolate, duas maçãs, um generoso pedaço perfeitamente simétrico de melancia, e uma boa quantia de ameixas. Tudo parecia perfeito, exatamente como sua avó gostava (e ela também). Seu estômago roncava e sua boca salivava. “Talvez ela me deixe comer um pouquinho quando chegar lá,” pensou, ficando ainda mais animada, “é tão longe, não é possível que ela não queira deixar eu comer pelo menos um pedacinho desse bolo.”

Já estava quase escurecendo, então a garota teve que se apressar. “Não vá pela floresta, Prairie. Já está anoitecendo e você sabe o quanto é perigoso.” Sim, sua mãe estava certa. A noite lá era sombria e perigosa, ninguém se arriscava a ir por aquele caminho. Além disso, havia diversas lendas de crianças que eram levadas por bruxas malvadas ao passar pela floresta à noite. Mas Prairie não era uma criança, era uma adolescente. No auge de seus 14 anos, não tinha medo de muita coisa. Quando tinha 9 anos, uma cobra imensa envolveu seu corpo enquanto cochilava no jardim; Ela brincava até dormir, e gostava muito de deitar na grama após uma garoa matinal. Quando seu pai finalmente havia chegado, ela já tinha apunhalado a cobra com uma faca que estava a seu alcance.  Foi nesse dia que ela se tornou a menina mais corajosa e destemida que aquele vilarejo jamais havia visto.

Sua mãe estava tomando banho, então Prairie deixou um bilhete em cima da mesa da copa: “Fui à casa da vovó.” Pegou uma lanterna para a volta e seguiu depressa. O caminho que ela tinha em mente não era lá essas coisas… Principalmente depois de uma tempestade na madrugada anterior. Após chuvas extensas, a noite na floresta costumava ser gelada como se houvesse neve e com muitas poças de água, o que dificultava sua travessia. No entanto, isso era algo que a garota desconhecia, já que nunca havia passado pela floresta na escuridão. Aliás, ela não imaginava que estaria tão escuro. A densidade da vegetação era inimaginável: As folhas das imensas árvores se entrelaçavam, formando uma espécie de manto que impedia que a pouca luz do final de tarde passasse. No fundo sabia que seria errado não seguir o conselho de sua mãe, e sabia que algo poderia acontecer, mas nem por isso deixou de seguir em frente.

Ligou sua lanterna e iluminou ao seu redor:  “Que lindo!” sussurrou para si mesma, “Parece que fica mais bonito ainda à noite.” Olhava para os lados observando a água corrente que por ali passava, e sem vestimentas adequadas para o frio que fazia, tremia: “Eu devia ter trazido um casaco…” E prosseguiu olhando mais para os lados que para o chão. Não ouvia barulho nenhum além do som das cigarras que ecoava na imensidão em que havia entrado.

Olhou em seu relógio e já havia passado uma hora desde que saiu de casa. Como não conhecia aquele trajeto, poderia demorar até duas horas. Na verdade não era apenas por desconhecer o trajeto; Prairie estava congelando, e por mais que não quisesse admitir para si mesma, estava tremendo de medo também. Sentiu seu pé preso em algo e o iluminou: “Não acredito que isso está acontecendo!” Pensou, desacreditada. Havia ficado preso em um buraco pequeno que apenas ele poderia ficar. Ela o puxava, mexia e remexia, e nada. Tentou afastar o solo de seu pé com as mãos, e de nada adiantava. “Será que vou ficar aqui para sempre?”

Deitada no chão coberto por folhas úmidas, seu coração acelerado não ajudava a sanar o desespero.  Sua lanterna iluminava o tronco de uma árvore que havia em sua frente, mas pouco conseguia enxergar devido às lágrimas que desciam pelo seu rosto enfileiradas. Só conseguia pensar a todo instante: “O que eu estou fazendo aqui? Era certeza que daria errado, por que não pensei?” O frio que sentia parecia estar sumindo e ao invés de tremer de frio agora suava. Sentiu alguém pegando em seu pé, e desprendendo do buraco. Mirou a luz de sua lanterna em direção ao seu pé, e ficou surpresa: Um garotinho loiro, com suas roupas sujas e rasgadas, a encarava. Aproximou-se dele e observou uma ferida aberta em seu braço. Não parecia que era recente, pois não havia nenhum sinal de sangue. O menino estava imóvel e olhando diretamente nos olhos de Prairie. Perguntou, almejando uma resposta: “Você está perdido?” Ele não falou nada, apenas continuou olhando para seu rosto. “O que aconteceu com o seu braço?” Parecia que o som das cigarras ficava cada vez mais alto à medida que o questionava e não obtinha respostas. Aproximou-se dele mais um pouco e levou sua mão em seus ombros. O garoto olhou para o lado, com uma expressão de desespero, e saiu correndo, veloz. Prairie assustou-se: “Não vai,” gritava, “volte aqui!” Mas ele já havia desaparecido pela escuridão. Seu suor secava e o frio voltava. O que será que aquele menino havia visto?

Continua…