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A floresta: Prisioneira

Sentia calafrios. O silêncio que ecoara na floresta não era mais o mesmo, já que agora apresentava-se com mais força a fazendo se sentir mais sozinha a cada passo que dava. Aquele garotinho veio como um raio: Pronto para partir, sem dar nenhuma explicação sequer. Que diabos havia ocorrido? Ela estava em choque, completamente confusa. Será que estava tendo alucinações? Seria uma boa explicação por estar tão assustada e perdida por o que parecia uma eternidade.

Prairie andava em passos curtos temendo o que poderia ver adiante. Sua expressão era o retrato de seu medo, uma mistura de suor, lágrimas e terra. O vestido sujo que trajava ia até o joelho, passando pelo seu corpo que exibia diversos vestígios de lama e arranhões. Sua respiração ofegante fazia com que sentisse sua garganta a seco e uma sede agoniante. “Tudo o que preciso agora é encontrar um pouco de água”, pensava, incapacitada de usar o mínimo de sua voz, “eu preciso encontrar…”, passava a mão sobre seu rosto para tentar enxugar as lágrimas que agora já desciam mais vagarosamente. “Se eu não encontrar o que beber, não suportarei andar mais.” A garota já sabia que se não tentasse suprir sua sede, logo não teria mais forças. Girava em torno de um ponto fixo tentando iluminar o que havia em sua volta, tentando avistar algum sinal de água corrente. “Sei que havia uma corrente por aqui, não pode estar muito longe.” Andava lentamente, sentindo sua respiração presa.

Sentiu de repente um leve vento em suas costas, virando-se imediatamente. Não parecia haver nada por onde olhava, tudo continuava entediantemente igual. Andou por mais alguns metros e sentou-se em um monte de folhas macias e aconchegantes. “Eu preciso de água…” Repetia, inconscientemente. Novamente sentiu o vento em suas costas, e se afastou chorando, pousando sua mão em algo molhado e cortante. “Mas o que é…” Por bondade do destino, sua mão havia ido direto em uma corrente de água pura e cristalina sobre pedras afiadas que houvera visto e agora havia finalmente encontrado. Bebeu aquela água com tanta vontade como se houvesse ficado sem por dias. Molhou suas mãos e logo em seguida molhou seu rosto a fim de limpá-lo de tanta sujeira.

“Já devem ter se passado umas três horas que eu estou presa nesse lugar”, falou baixinho, “minha mãe deve estar desesperada atrás de mim…” Tinha completa consciência de que havia feito a coisa errada ao seguir o caminho que sua mãe a aconselhou a passar longe.

“Prairie”, ouvia uma voz em sussurros se aproximando, “Prairie…” Virou-se imediatamente. “Mamãe?” Perguntou com um tom árduo. “É você? Por favor não desista de me encontrar, eu estou perdida!”, aumentou sua voz. E então rapidamente voltou a sentir suas lágrimas quentinhas descendo pelo seu rosto em meio ao frio. Desmoronou ao chão, totalmente inconformada. “Ela estava tão perto…”

Ouvir a voz de sua mãe e não conseguir vê-la, tocá-la e abraçá-la deixou Prairie confusa. Por que ouvia aquele timbre tão doce? A proximidade em que pareciam estar fazia a garota se lembrar do quão bom era dormir em seus braços acolhedores e quentinhos. Ah, quentinhos. Era algo que ela já não se lembrava mais. Havia se tornado prisioneira daquela floresta. A floresta a fez prisioneira.

Passava a mão no braço em que segurava a lanterna, tentando se aquecer. À medida que o tateava, sentia-o mais molhado. Molhado? “Ó céus, que porcaria é essa agora?!” Visualizou seu braço direito sujo de sangue por inteiro. De onde havia saído todo aquele sangue fresco? Não pareciam conter feridas. Só havia uma explicação cabível: Suas mãos. Ambas. Os cortes foram feitos pelas pedras cortantes da corrente de água que houvera encontrado de uma forma sangrenta. Doíam tanto, mas tanto, que latejavam. Inchadas, cortadas, ensanguentadas. Como não havia sentido antes? Rasgou um pedaço de seu vestido imundo para estancar a vermelhidão e deitou-se no chão úmido, exausta. Desligou a lanterna.

“Acorde menina!” Levantou-se em um pulo, ligando sua lanterna. “Então quer dizer que você está perdida”, disse o garotinho, sorrindo inocentemente, “eu também me perdi neste lugar enfadonho, sem sal… Sinto falta da minha mamãe, você também sente, não sente?” Prairie com uma reação de espanto, não hesitou: “Sim, estou perdida, completamente, totalmente! Por favor, me ajude a sair daqui… Você sabe como sair, eu tenho certeza disso.” Uma troca de olhares deu lugar a um incômodo suspense, que certamente Prairie adoraria interromper. “Anda, responda! Você parece estar aqui a mais tempo que eu, olhe só seus machucados, tão passados e pouco cicatrizados! Onde é a saída?” A agonia tomava conta de seu peito com rapidez, e aquele menino loiro não demonstrava interesse em ajudar, mas muito pelo contrário: Deixar uma grande incógnita. Sorriu novamente, porém desta vez com malícia: “Descubra.” Correu em direção contrária à menina, como se estivesse brincando de pega-pega.

Passos para trás descompensados, tortos e involuntários. O destino parecia voltar para se cruzar com os mesmos caminhos mil vezes; A floresta parecia uma prisão que estava pronta para sufocar a prisioneira a qualquer momento. Tropeçou em algo grande e imóvel, bem no meio do caminho de seus passos invertidos. Na tentativa de se levantar, desequilibrou-se e caiu novamente, sentindo seu pé preso. “De novo não…” Disse, com um tom de desânimo. Havia ficado presa em um buraco, como houvera antes. Agarrou sua lanterna e ao iluminar seu pé, teve uma surpresa: “Não é possivel, preciso passar por isso de novo? Eu quero sair daqui agora!” Uma enorme cobra aproximava-se sorrateira, como se estivesse indo em rumo ao seu banquete predileto. “Prairie… Onde está você? Estou indo lhe buscar minha filha!” Ouvia gritos em meio à imensidão. “Mamãe? Venha logo, eu estou presa!”

Os montes de folhas eram bons travesseiros. Uma ardência quase que insuportável tomou conta de seu corpo, assim como o mau cheiro. Um fino feixe de luz passava por suas pálpebras, formando imagens embaçadas, como um espectro do mundo real. Precisava abrir seus olhos e tentar desvendar o local onde estava, no entanto, não era tarefa fácil. Estava faminta, desidratada e tremendo de frio. Levantou-se com dificuldade do que parecia ser um colchão fino e rasgado no meio de uma sala estreita. Havia uma lâmpada  no centro do teto de madeira mofado, com sua luz falhando. A porta estava trancada, as janelas fechadas por fortes velhos cadeados. Não haviam saídas. Olhou para seu vestido: Nunca estivera tão coberto por sangue e sujeira. O fedor de suas feridas eram escancarados, embrulhavam seu estômago.

“Oi? Tem alguém aqui?” Gritou Prairie, esperançosa. A única resposta era o silêncio. Com toda certeza haveria alguém ali, afinal, como teria ido parar em uma cabana? Havia andado por horas pela floresta e não tinha visto nada daquilo. Aliás, tudo parecia ser a mesma coisa aqui e ali, como se andasse em círculos; Como se o universo fosse cruel o bastante para juntar seus pesadelos em um só lugar. Seria errôneo dizer que ela não estava com medo, pois estava apavorada. Nunca esteve tão desesperada e desolada como naquelas últimas horas (ou dias).

As lendas que assombravam aquele vilarejo pareciam ser verídicas no que dizia respeito àquela floresta. Bruxas malvadas que se aproveitavam de visitantes- ou apenas pessoas perdidas. Havia outra lenda que dizia que quem adentrasse aquelas trilhas, era tomado por alucinações e medos jamais sentidos. Quem seria aquele garoto, afinal? Por que aparecia e sumia tão rapidamente sem parecer querer muito papo, simplesmente deixando a menina de 14 anos sem nenhuma instrução sobre como poderia sair dali e reencontrar sua mãe? Sua infância forte e valente parecia vir como um flashback bem em sua frente. O mesmo buraco, a mesma cobra. Tudo estava sendo jogado contra ela. Não era corajosa o suficiente? Parecia que a maldição se confirmava. Ou apenas se reafirmava…

“Olá, Prairie.” Disse o pequeno menino loiro amedrontador. “Você queria sair daqui, né?” Indagou, irônico. Como sabia seu nome? “Sua mãe nunca irá vê-la novamente.” A luz que antes brilhava com falhas agora já não brilhava mais. A floresta que era sombria agora se tornava fúnebre, como o interior de um túmulo. O silêncio nunca havia sido tão ensurdecedor.