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Cinza

Não te pesa a consciência alimentar essa casca sobre você? Ela não pesa? Ela não cai? Como? Não te dá dores nas costas? Nem no coração? Não se sente em cinzas expondo essa coisa cor de rosa estranha que te cobre por completo? E o fôlego, você não perde? Não fica sufocado? Te traz alívio fazer as pessoas sorrirem com toda essa cor? Pare de mentir para si mesmo.

Pensa que o que alimenta o que você acha que é vem de dentro? Por dentro existe um ser puramente verdadeiro. Por fora existe um traje bonito, cabelo arrumado e um belo sapato. Acha que consegue disfarçar o sofrimento que há no fundo do seu coração coberto por essa casca? Pare de se enganar.

Você age como quem não quer nada e toma todo o cuidado do mundo para não deixar o semblante entregar o emaranhado de sentimentos que está impregnado em sua alma. Mente para as pessoas e às vezes deixa escapar um pouco do seu veneno guardado. Isso não te traz vergonha? Não te deixa exausto ferir outros por algo que te estilhaça dia após dia?

Lembro de ouvir-te dizer que queria mudar. O que você está mudando? Seu disfarce? Enquanto está preocupado em manter o cor de rosa dessa sua casca bem vivo, seu eu interior está apodrecendo. Bom, não sei você, mas eu nunca vi algo podre voltar a ser viçoso.

Não sei se toda essa mentira te cansa,  mas você está de pé em um mundo que não tem chão. Pois então não te dá vontade de construir um chão? Onde está se sustentando? Nessa sua aparência medíocre? Para de se machucar. Respira.

A vida é um tesouro que só é verdadeiramente desfrutado quando se é verdadeiramente si mesmo. Uma hora você vai cansar de toda essa história e vai querer viver. Espero que seja logo.

Florescer

Eu tenho flores. Elas são dotadas de sensibilidade e inconstância, mas também de beleza. Todos os dias passo pelo meu jardim sentindo o cheirinho, em especial, o das rosas. Juro, são as mais vibrantes e cheirosas daquele local. As pessoas passam pela calçada e logo sentem o perfume. É tudo tão vivo e alegre, que sempre me perguntam a receita para aquele cultivo bem sucedido. Ora, não compliquem tanto. Apenas águo todos os dias um pouquinho. O aroma agradável é apenas uma consequência, assim como toda a vida ali existente. Às vezes quando estou indo à escola consigo ver algumas borboletas batendo suas asas exuberantes sobre as rosas. Até elas vêm para apreciar. Recordo-me claramente de quando comprei os botões para plantar: murchos e pequeninos. Todos me diziam que não iriam revigorar, pois além disso, o solo não era apropriado. Troquei a terra e a adubei. Cavei um buraco de um tamanho suficiente para que as raízes conseguissem ficar aconchegadas. Então, as cobri cuidadosamente. Logo em seguida reguei, com toda a certeza de que havia feito o que podia para salvar aqueles brotos. Dia após dia aguava-os, observando o desenvolvimento. No momento em que vi as pétalas se abrindo, mal acreditei. Sobreviveram! E estavam se tornando lindas flores, pouco a pouco.

Nos dias em que cheguei em casa e pensei que não daria certo, fiquei muito chateada. Tive um trabalho particularmente atencioso, e não deixei de acreditar. A felicidade em vê-las crescendo belas e perfumadas tomou conta de mim. Sei que se as deixasse sem água, iriam secar e morrer.

Não é sobre ter o maior jardim do bairro, ou o mais cheio de flores. É sobre ter o mais perfumado e vívido que poderia cultivar.

Assim é a vida.

Medo

De que você tem medo?

Ando por caminhos escuros, sem saber o que virá a seguir. Mal consigo olhar em volta. Não quero ver, não quero sentir. A escuridão nos faz querer correr, e é isso que quero fazer. Temo morrer de frio, daquela dor de cabeça de quando o vento congelante vem em sua direção. Piora cada vez mais. Remédio não cura. Como tanta gente consegue sentir isso a vida toda e continuar vivendo? Soa como piada. A falta de luz me faz cair em todas as pedras, que por sinal apenas ficarão maiores. Como tanta gente consegue passar por elas a vida toda? E quando todo o caminho escuro está preenchido por pedras? Eu posso quebrar minhas pernas e não conseguir mais levantar.

Ao meu redor estão vários lobos. Eles observam, mas me olham com indiferença. Eu grito, grito, grito, minha garganta dói. Agem com normalidade. Peço ajuda, mas se viram e seguem seus trajetos. Apenas um se aproxima. “Não consigo me levantar, estou com frio e está tudo escuro, será que pode me ajudar?” E então ele apenas faz como os outros.

Uma senhora passa por mim e pergunta o que aconteceu. Explico que tropecei e me machuquei muito, além de estar com muito frio. “Por que não vestiu um casaco? Preste atenção.” E assim segue, como já havia me acontecido antes.

Vejo uma luminosidade estridente ao meu lado e me arrasto até ela. Encontro uma moça com várias lanternas. “Você precisa de uma, tome essa aqui.” E me alcança uma daquelas. “Sei que não consegue ver nada, mas agora vai poder enxergar por onde anda.” Logo em seguida chega um rapaz, com um andar discreto e com um jeito calmo. Esperava por palavras vindas dele, talvez sua voz fosse tão suave como o resto. “Ei, você está louca? Precisa se virar sozinha, largue esta lanterna.” Diz, derrubando-a de minhas mãos. E assim segue seu trajeto. Abaixo minha cabeça e começo a chorar. “Chore, bote para fora.” Diz a vendedora, me abraçando. Ela estanca o sangue com alguns panos e logo em seguida chama ajuda. Engraçado, já que o que mais sangrava naquele momento era meu coração.

Consigo ouvir com muita clareza todos os outros gritos por ajuda a minha volta. Talvez nem todos tenham a mesma sorte de encontrar uma banca de lanternas. Talvez só passe por eles quem apenas ignora e aumenta a dor.

Meu coração continua sangrando, e a cada minuto que se passa a fraqueza toma mais espaço. Sou atendida. Levo pontos em todos os machucados em meu corpo. Doutor, a dor vem de dentro. “É normal, às vezes sangra, já passei por isso, vai passar. É apenas uma fase.” Obrigada.

Ninguém vive sem sangue, assim como ninguém vive sem a felicidade.

Eu tenho medo de não parar de sangrar.

Aperto

O tempo passa devagar,

E só consigo sentir o aperto no peito

De quem apenas está a se afogar.

 

Dizem que é simples:

“Não é nada, já vai passar”

Vivendo de promessas alheias

Aumentando a esperança de algo incerto

Sinto o sangue correndo por minhas veias.

 

Quanto mais respiro,

Mais sem ar fico

Inspiro

Expiro

 

Preste atenção,

Ainda sairá prejudicada

Você tem prova amanhã

Cuidado para não dar mancada!

 

Se não deu certo:

“Não se preocupe, ainda dará!”

Vivendo aguardando o futuro

Que aparenta estar por perto

 

Acomodando-me no duvidoso,

Mergulhando em abismos,

Vivendo subjetivismos,

Aguardando por algo frutuoso.

Para que?

Quando nasci, ganhei de presente a morte. A única certeza que tenho é que um dia irei morrer. Falecer. Chegar a um lugar melhor. Bom, chame-a como preferir.

Outro dia estava dormindo profundamente, quando fui acordada repentinamente com aquele sentimento de que algo estava errado. A luz do sol não transpassava a janela como outrora; ainda podia sentir o frio da madrugada. Tive minha paz interrompida em meio à noite envelhecida. Ó Deus, o que poderia tirar meu sossego desta forma? A morte. Somos pegos de surpresa, -eu fui pega de surpresa! Arrumei minhas coisas com uma enorme dificuldade para enxergar o que estava pegando em minhas mãos, as lágrimas desciam cada vez mais densas. Ó Deus, logo agora?

A dor no peito apertava cada vez mais. O tempo próximo não costuma ajudar muito… Ele apenas vai inflando nosso peito de angústia. Chorei, pois precisava desinflar. Se o tempo próximo não dói, a longa data te aniquilará aos poucos. Os minutos se tornam horas. Cada instante parece ser uma eternidade.

O que temos certeza (e a única certeza) é que à morte estamos destinados. Não há como fugir, não há como correr. Alguns colidem de frente, quando não se sentem capazes de suportar mais a própria vida; alguns correm, o mais rápido que podem. Tabu! Outros, tranquilos, a recebem como um destino manso. Temendo ou não, saiba: Todos iremos morrer.

Toda a sociedade se apressa para conseguir o que quer, ou até coisas que nem são tão necessárias assim. Pois ora, olhe nas ruas de sua cidade. O sofrimento é um vírus: descuide-se e será contaminado. A rotina cansa, suga a alma e a felicidade dos seres humanos. Olhe nas ruas de sua cidade! Palavras grosseiras e agressivas, filtros inexistentes. Trabalhe! Trabalhe! Seja ambicioso! Para que? À morte estamos destinados, e no céu não entra dinheiro, e nem bens conquistados durante a vida. Hoje conversando com uma professora, ouvi atentamente: “Carro é roubado, dinheiro também. Mas o conhecimento que passo aos meus filhos, as experiências vividas, isso eu tenho certeza que não será tirado deles. É para sempre.” Para que passamos toda nossa desprezível existência sofrendo e correndo sem parar? Não adianta ser ganancioso. É aí que entra todo aquele discurso da felicidade.

Ah, caro leitor, não tema a morte. Ela é algo que chega de fininho e pega muita gente de surpresa. Mas saiba que o sentido da vida está nos amores que conquistamos; nas pequenas coisas apreciadas; na paz do pôr do sol; no cheirinho das plantas levemente umedecidas após a garoa. Nossa existência, apesar de todas as dores e perdas, não é inútil. Parece fútil dizer, mas apenas vivemos uma vez. Apesar da luz não transpassar mais à janela nas manhãs ensolaradas, esse não é o fim. O fim, meu amigo… Não o cogite, não o espere. Mas saiba que ele existirá. Tenha vontade de sentir o cheirinho da terra molhada, de ver o arco íris. Seu legado nunca morrerá.

Não perca a sua vida! Não é algo que é vendido por aí em camelôs e nem na internet. Ela passa num piscar de olhos, e esse piscar de olhos não se repetirá. Nascemos e ganhamos de presente a morte…

Para que eu possa me lembrar

Sabe quando no meio da semana bate aquela saudade de todos que você ama? Não que você não seja amado, mas sente falta da companhia. Às vezes sentimos mais necessidade que outras vezes. Um carinho de amigo, de mãe, de cara-metade. Eu sou um ser humano e como todo ser humano tenho ânsia de amor. Creio que não é pedir muito. Nós somos tão belos com essa capacidade de amar e de sentir coisas indescritíveis, mas somos mais belos ainda quando compartilhamos tudo isso com alguém. É uma necessidade completamente comum de todos nós. Leia isso com atenção: Quantas vezes você já disse “eu te amo” hoje? Tá na hora de começar a dizer. Mas não diga isso só para agradar o outro, diga isso para expressar o seu amor, para deixar fluir esta alegria em você. Ao dizermos isso, a sensação que dá é tão boa que dá vontade de sair gritando para todo mundo ouvir o quanto a pessoa é importante para você. Não tenha medo de mostrar. Mostre mesmo. É tão bonito… Não acha? É bonito o sorriso da pessoa quando te ouve dizer palavras bonitas, o brilho que surge fora do normal em seus olhos. Fazer alguém feliz é se fazer feliz. Minha melhor amiga é um amor de pessoa, e eu não canso de dizer que amo ela. Por que não? Ela me faz a amiga mais feliz do mundo, e eu faço ela se sentir assim também, porque é recíproco. Meu namorado a mesma coisa. Minha irmã, minha prima, e assim por diante. As relações estão aí pra isso, para dizer o quão importante cada pessoa é. O amor nos deixa feliz. Não compreendo quem diz que “é alérgico ao amor”, que isso é treta e tal. Se é treta é porque não é amor, concorda? E também, ninguém nunca disse que seria fácil. Nada vem tão fácil, às vezes é preciso batalhar para se ter aquilo que desejas. Não desista de amar. Não desista das pessoas que te fazem feliz. Viemos a este mundo para sermos felizes e compartilharmos isso. E não ache que não merece. Merece sim, e merece muito.   O amor está na pureza das palavras e na beleza dos gestos. Porque o amor não está apenas nos ditados, está na comprovação disto. O doce toque e o doce beijo, o desesperador olhar que acalma, e tudo ao mesmo tempo. O ” busca água pra mim” de todo fim de semana e o “vou te matar” de toda terça e quinta. Olha, eu amo vocês. Dos mais profundos labirintos de meu coração, eu amo vocês.

Eu sou muito mais do que você possa imaginar.

Claro. Sou uma pessoa como você, feita de carne e osso. Olhe para mim. Sim, olhe para mim. Olhe logo. Olhou? Ok, agora me diz: O que você vê? Um rosto, um corpo, uma imagem. Já parou para pensar o quão bela posso ser por dentro? Quantos sentimentos e sonhos guardo dentro de mim? Sou tão normal quanto você. Tenho vontades, tenho desejos, pensamentos estranhos, e mais um bocado de coisas não definidas. Posso ter consciência ou não, posso ser uma pessoa boa ou ruim, ou os dois ao mesmo tempo. Já ia me esquecendo, sou um poço de desgraça, assim como você também é. Rude? Eu? Não. Aliás, talvez. O que você vê pode ser apenas um rosto, um estereótipo. Tenho minhas ânsias, meus medos, minhas capotadas diárias, minhas pequenas-grandes mentiras, meus erros, minha preguiça. Mentirosa? Não. Aliás, talvez. Sou um rio de incertezas, como você. Às vezes fico sentada na cama olhando pro nada, pensando em que merda eu estou fazendo. Tudo poderia ser melhor. Aliás, pode. Aliás, talvez. Falsa? Eu? Não, claro que não. Na verdade… pode ser que sim. Você nunca vai saber. Posso estar fingindo, ou posso estar dizendo a verdade. Sou um poço de alegrias, assim como você também é. Dou risadas, choro, gaguejo, xingo. Ah, como xingo! E xingo muito. Estaria sendo hipócrita se dissesse que não xingo. Xingar é feio, ah se não é. Mas mesmo assim eu xingo. Xingo muito. Você também xinga. Não seja hipócrita. Quando bate seu dedinho do pé na quina de algum móvel, o que você diz? “Ah que pena!”? Acho que não. A realidade mesmo é que você diz coisas bem piores que isso. Você mente, eu também. Você sente, ama, chora, ri, xinga, é sem educação e não tem paciência. Eu também sou assim. Aliás, talvez. O que você vê primeiro quando olha pra mim? Meu rosto. Muitas coisas podem estar além disso. Eu sou um mar de imensidão. Tenho meus valores, e assim como você, eu não preciso provar para ninguém as minhas afirmações pessoais. Olhe, quem é essa garota que chegou agora? Ridícula, ela? Por que? Ela tem cara de nojenta? Que que tem? O que você está vendo, meu caro? Um rosto? Eu também. Mas olhe para ela. Olhe logo. Olhou? Ok, agora me diz: O que você vê? Ela é muito mais do que você possa imaginar. Universo que me livre de pessoas que julgam sem conhecer. Aliás, estaria sendo hipócrita se dissesse que não julgo. Ah, como julgo. Por mais que eu tente, ainda tenho esse lado sombrio. Sou estranha, assim como você também é. A diferença entre nós é que um pode ser menos estranho do que o outro. Mas temos algo em comum: temos sentimentos, alegrias, tristezas, e muitas estantes para colocarmos os nossos erros. São tantos erros que ainda estão por vir, que acho que já vou fazer encomenda de mais estantes. Mas olhe, olhe de novo. Ela é legal? Sério? Não parecia. Quer ser nossa amiga?