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Para que?

Quando nasci, ganhei de presente a morte. A única certeza que tenho é que um dia irei morrer. Falecer. Chegar a um lugar melhor. Bom, chame-a como preferir.

Outro dia estava dormindo profundamente, quando fui acordada repentinamente com aquele sentimento de que algo estava errado. A luz do sol não transpassava a janela como outrora; ainda podia sentir o frio da madrugada. Tive minha paz interrompida em meio à noite envelhecida. Ó Deus, o que poderia tirar meu sossego desta forma? A morte. Somos pegos de surpresa, -eu fui pega de surpresa! Arrumei minhas coisas com uma enorme dificuldade para enxergar o que estava pegando em minhas mãos, as lágrimas desciam cada vez mais densas. Ó Deus, logo agora?

A dor no peito apertava cada vez mais. O tempo próximo não costuma ajudar muito… Ele apenas vai inflando nosso peito de angústia. Chorei, pois precisava desinflar. Se o tempo próximo não dói, a longa data te aniquilará aos poucos. Os minutos se tornam horas. Cada instante parece ser uma eternidade.

O que temos certeza (e a única certeza) é que à morte estamos destinados. Não há como fugir, não há como correr. Alguns colidem de frente, quando não se sentem capazes de suportar mais a própria vida; alguns correm, o mais rápido que podem. Tabu! Outros, tranquilos, a recebem como um destino manso. Temendo ou não, saiba: Todos iremos morrer.

Toda a sociedade se apressa para conseguir o que quer, ou até coisas que nem são tão necessárias assim. Pois ora, olhe nas ruas de sua cidade. O sofrimento é um vírus: descuide-se e será contaminado. A rotina cansa, suga a alma e a felicidade dos seres humanos. Olhe nas ruas de sua cidade! Palavras grosseiras e agressivas, filtros inexistentes. Trabalhe! Trabalhe! Seja ambicioso! Para que? À morte estamos destinados, e no céu não entra dinheiro, e nem bens conquistados durante a vida. Hoje conversando com uma professora, ouvi atentamente: “Carro é roubado, dinheiro também. Mas o conhecimento que passo aos meus filhos, as experiências vividas, isso eu tenho certeza que não será tirado deles. É para sempre.” Para que passamos toda nossa desprezível existência sofrendo e correndo sem parar? Não adianta ser ganancioso. É aí que entra todo aquele discurso da felicidade.

Ah, caro leitor, não tema a morte. Ela é algo que chega de fininho e pega muita gente de surpresa. Mas saiba que o sentido da vida está nos amores que conquistamos; nas pequenas coisas apreciadas; na paz do pôr do sol; no cheirinho das plantas levemente umedecidas após a garoa. Nossa existência, apesar de todas as dores e perdas, não é inútil. Parece fútil dizer, mas apenas vivemos uma vez. Apesar da luz não transpassar mais à janela nas manhãs ensolaradas, esse não é o fim. O fim, meu amigo… Não o cogite, não o espere. Mas saiba que ele existirá. Tenha vontade de sentir o cheirinho da terra molhada, de ver o arco íris. Seu legado nunca morrerá.

Não perca a sua vida! Não é algo que é vendido por aí em camelôs e nem na internet. Ela passa num piscar de olhos, e esse piscar de olhos não se repetirá. Nascemos e ganhamos de presente a morte…